sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Empariados

Ah, como seria bom se nós vivesse empariado,

Assim juntinho, lado a lado

Nas intemperanças e dádivas desse mundo embolador.

Mas por uma gaiatice Divina nós não vevi.

Então eu fico mancomunando no meu imaginário

Situações em que nós vivesse pregado.

 

Imagina se nós fosse dentada de onça do lajedo,

Tu a dentada e eu o mordido.

Tu com a boca em eu e eu me acabando na tua boca.

Mas se isso fosse sanguinolento demais pra tu

Nós podia ser outra coisa.

 

Nós podia ser beira de rio,

Tu a corrente forte e eu um surubim pra tu me guiar.

Tu me levando nos teus braços e eu deixando me levar.

Mas se isso fosse fácil demais pra tu

Nós podia ser outra coisa.

 

Nós podia ser ferroada de fuzileiro maribondo,

Eu o ferão pra penetrar e tu a pele se abrindo para eu.

Meu ferrão fazendo parte de tu e tua pele fazendo parte de eu.

Mas se isso fosse dolorido demais para tu

Nós bem que podia ser outra coisa.

 

Nós podia ser um carro de boi,

Eu o carro e tu os bois para me levar por esse mundão a fora.

Tu levando pelo caminho e eu abraçado no teu cangote sendo levado.

Mas se isso fosse lento demais pra tu

Nós podia ser outra coisa.

 

Nós podia ser uma Cavalhada sertaneja dos doze pares de França,

Tu do cordão azul e ibérico e eu do cordão encarnado e mouro

E nós dois cavalgando juntinhos.

Mas se isso fosse demais pra tu

Nós podia ser outra coisa. 

 

Nós podia ser feito coceira de urtiga,

Eu a unha pra me esfregar em tu e tu a queimação pra se ouriçar em eu.

E se isso tudo fosse demais pra tu

Só uma traquinagem divina para juntar nós.

sábado, 15 de novembro de 2008

O Velho Galego visita terras do Leste

Sou o Velho Galego de Sumé.
Andarilho não nego não.
Corro montado em meu Castanho,
Descendente direto do legendário Pedra Lispe,
Meu fiel alazão.

Ando feito passarinho em revoada.
Meus pés se movimentam pelo chão.
Já passei por chão verde que não da semente
E pedregoso, poeirento e viçoso.
Vi quase todas as maravilhas desse e do outro mundo.

Uma das maiores maravilhas que vi
Foi em terras do leste.
Uma luminosa estrela de três Flechas
Que os anjos, com excelência magistral
Sustentavam no pretume celeste profundo do céu.

Ela estava montada na zelação
Com os cabelos enfeitados de flores
Cavalgando pelo céu de além-mar
Sem pena e sem penar,
Certeira feito a pontual Caetana.

Minha Virgem Maria que apavoração.
Se parto eu morro lá fora,
Se eu fico morro de não ir.
Me proteja faca de duas pontas,
Me ilumine meu padroeiro santo Fuzil.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Revoada - Para Carol Pires

Nesse mundo tudo se movimenta
E o implacável Tempo dá o tempero.
Com o tempo, tudo que o Tempo dá
O Tempo sem avisar vem e toma.

A Vida passa montada no vento
Que rasga o horizonte
E a Pipa branca no céu
Fazendo movimento mostra a direção.

Voa amiga Patativa
Que o mundo tem que embolar.
Vá longe fazer suas piruetas
E em outro puleiro cantar.

Se o Tempo implacável esfriar
E tomar o que te deu
Não chore amiga pequenina
Que Maria deixou um ninho bento.

sábado, 6 de setembro de 2008

A Partilha do pão. Cosme e Damião esperando a Fortuna

Os cavaleiros Solares açoitavam suas montarias
Com suas esporas de ouro e tabicas Fumegantes.
Os cascos dos corcéis riscavam línguas de Fogo aladas
Que Ferviam as pedras do lajedo.

Um par de irmãos santos, Cosme e Damião,
Penitentes, derramavam lágrimas agrestes.
Transpassados na alma e na Carne
Esfriavam a pedra com as gotas do pranto.

A cavalaria Ignorava e passava
Em um silêncio ensurdecedor e sepulcral
Refletindo os Lampejos dos cristais e do dourado.

Em meio a toda dor, um sorriso, um alívio.
Defronte a dentada da Onça celeste
Maria divina divide o pão e roga pela Fortuna.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Picadeiro

Nós bem que poderíamos fugir com o circo
E viver de amor mambembe.
Eu de palhaço, tu de trapezista.
Lá vem você flutuando, vestindo farrapos de nuvens,
Enquanto eu ficava lá de baixo dando trupicão
E molhando o chão com gotas de suor e melancolia.

Desce trapezista malvada.
Vem enxugar essa molhadeira.
Me empresta um farrapo dessas nuvens,
Um que cubra um pedacinho leviano,
De pele ou de pelo
Para satisfazer um coração mundano.

E se faltar elenco
Eu poderia ser o mágico ladrão de corações,
Que colocava cartas de copas nos ouvidos das donzelas desavisadas
E você poderia ser a fenomenal engolidora de espadas.
Iríamos arrancar suspiros,
Eu de amores e você com sua habilidade com as lâminas.

Assim nosso circo viveria de risos, lágrimas e amores.
Nossos corações viveriam coladinhos
E seriamos arteiros fazendo trela
Com os corações alheios,
Com os sonhos verdadeiros
E com os olhos devoradores.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

A briga certeira

Afe Maria, vou contar uma situação
Que se passou lá pelos lados do Araripe
Em noite estrelada
Típica do Sertão.

Bem na boca da noitinha
Quando as cigarras já cantavam suas cantigas noturnas,
Trovão fiel latia no fundo do terreiro
E o querosene da lanterna se acabava.

Cem bilhão de sapos cururu se amoitando
Tentando pegar o dobro de bilhão de mariposas avoando.
Trezentos pares de ziguezigue dispareados virados numa gota
Barruando sem dó nem piedade numa parede frienta e malvada.

Doda de Dedé vinha subindo a ladeira já meio bêbado
Enquanto uma vira-lata perversa tentava com empenho
Morder com vontade o mocotó
Do desprevenido embriagado.

Era uma mordidagem que não tinha fim.
Foi dentada, chute de bico, largada de mão, mordida da orevlha.
O cacete era dos grandes.
Bêbado e cachorra embolaram na ladeira atá a venda de Serafim de Bebé.



Foi ai que a coisa piorou.
O barulho da cachorrada foi tão grande
Que a vizinhança foi se acordando.
O povo se largou para o meio da rua para ver o que se passava.

Gemido, latido, rangido de dente, bufada de venta.
O bêbado e a cachorra não paravam com a galinhagem,
Os dois já estavam só no farrapo.
Aquelas alturas mais de noventa riscadas de chão marcavam a rua.

Havia se passado umas trás badaladas da matriz
Quando o que já era feio infeiou de vez.
Correndo lá das bandas da feira de Boi Neném, lá de riba da ladeira,
Vinha uma figura abolotada, cheia de rolo na cabeça, vestida com mais de cem papoulas.

Imagine só o mal assombro .
Era um par de havaiana nos pés. Uma de cada cor. Amarela e azul.
Certamente eram do filho pequeno ou roubada de um defunto menor.
Sobrava um fura bolo na dianteira e mais de meio maior de todos no calcanhar.

Já tinha pra mais de vinte desocupados fazendo apostas.
Uma banda que apostasse na cachorra, oura banda apostando no bêbado,
E teve uma outra facção que quando viu a velhota vindo na carreira
Apostou que ela era dona e reclamante da cachorra e se escapuliu daquela rinha.



LIBRUINA, berou a mulher que tava suando feito tiradeira de espírito.
A cachorra largou de imediato
Um bife que tinha arrancado das costas de Doda
Que ainda estava meio empenado e de guarda armada.

Meu Jesus, assombrou-se a senhora
Quem danado fez isso com você?
Interrogou, vendo a cachorrinha
Toda esfolada de dentada e bufete.

Não chame por santo nenhum não dona.
Falou o bêbado abusado.
Quem descangotou esse filhote de maribondo fui eu.
E terminou a fala aprumando a carcaça e se equilibrando no calcanhar.

Olhe aqui seu desqualificado.
Falou a mulher que largou a cadelinha no chão e colocou as mãos nos quartos feito lavadeira de rio.
Quem é o senhor pra levantar essa mão cheia de dedos na minha cachorrinha?
Eu costuro seu palito no cacete seu gaiudo sem vergonha.

Pronto, agora foi que lascou.
Uma onça velha e mal acabada
Pra tomar as dores de uma miséria dessas.
Só pode ser piada ou agouro de mouro velhaco.



Quando o bêbado falou isso a mulher invocou uma Gira.
Seu desenfeliz. Eu sou pior que pingo de superbonde pingado no branco do olho,
Sou feito dentada de de mula com febre.
É melhor o senhor segurar as calças e prender a respiração.

Rapidamente, mais rápido que imediatamente, veio a resposta.
Se desanime que sou comando de fuzilaria entrincheirado na jurema.
De um apito de meu sopro a senhora leva tanto pipoco que não saber de onde veio o toró de tapa.
Na escola da valentia tive nervura exposta e deixei seu superior desacordado.

Se a senhora tem amor ao seu couro
Guarde logo essa sua língua bifurcada,
E volte do catimbó de onde veio.
Besouro Cordão de Ouro foi meu mestre de pernada, gingado e safadeza.

Triste do senhor se pensa que me bota medo.
Eu fui criada na lei do cangaço.
Sou natural das Serras Talhadas, de céu azule das noites frientas.
Sou prima legítima de Virgulino Lampião. Eu enfio meu dedo polegar onde suas costas muda de nome só para te desmoralizar.

Umas oitenta pessoas já estavam no meio da rua pra ver a briga e tinha mais umas trinta nas janelas.
Juntou mais gente que tropa de jumento da Borborema.
Foi ai que a coisa desandou.
A bandoleira deu um murro na boca do bêbado que choveu pivô e molar três dias naquelas terras.

Vendo que sua situação não tava das melhores
Doda resolveu amarrar a camisa.
Deu pernada e rasteira, cabeçada e cambalhotas.
A briga ficou bonita, parecia mais atração de circo da capital.

Ximbo Cabeção gritou na beira da arrelia
Alertando para o perigo iminente,
Pois duelo de cangaceira e capoeira bêbado
Ou acaba na cadeia ou termina em morte.

Zunido de bala foi o que se seguiu ao alerta do cabeçudo.
O povo abriu na carreira. Nem Libruina ficou.
A dupla briguenta ainda estava encangada no tabefe e na dentada
Quando chegaram os volantes que acabou com a festa e levou os briguentos para o xilindró.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Feira de Santo

O sol já se mainçava,
Devagarinho como quem espreguiçava de uma rede.
E uma chuvinha chovia morninha mornando a terra que já esquentava.
Os homem já se iam trabalhando, amuntados numa barra forte deselegante, mascando as marcas de uma vida por viver,
E Maria já se vinha suspirando, cheia de graça, levando numa trouxa o sonho dos sonhos por sonhar.
No meio do povarel tinha um sujeito magro, esconchavado, vestido de casaca que jurava que era santo,
E no sovaco levava um manual, que segundo ele, era de santidade.
O livro já tava meio encardido e descascado, cada vinco era feito marca na mão de lavadeira de beira de rio.
O santo dizia que era mais santo que qualquer outro santo, e que de milagre ele já era pós-graduado e doutor.
E pra provar sua santidade esculhambava, maldizia, estirava língua e dava dedo pra qualquer outra divindade desse ou de outro mundo.
Chamava de cuzeiro, emprestador de farinheiro, esfrabicador, ladrão, papa hóstia, roubador de moeda de cego, filhote de catraia mar feita
E qualquer adjetivoro que pudesse rogar contra a santidade alheia.
No meio do falatório todo, durante os agrados verbalizados
Num te conto o acontecido rapaz!
Num é que outro santo veio reclamar de sua parte.
Foi juntando gente, parecia até romaria de padre Cícero,
E os dois santos lascando o pau no meio da pista.
Um que contasse mais milagre que o outro.
Um andou por riba d’água em Sairé,
O outro levantou alejado em Bodocó,
Vinho virou água em Sumé,
Vaqueiro vestido de biquíni em Mossoro,

E depois dos milagres vieram as penitências.
Nunca vi dois miseravi pra sofrer tanto,
Só de chibatadas contem mais que as que Jesus levou dos centurião perverso.
E caco de vidro?
Tinha um que chupava no café da manhã pra ganhar um pontinho na fé,
O outro pingava cera de vela quente no olho pra num pecar com a vista.
O primeiro, na safra de eleição, aturou falatório de comício e candidato caluniador.
Eu sei que de judiação em judiação os santos iam se invocando feito galo de briga, e riscando os pé no chão feito boi brabo.
Até que Tonha boinha, de que boinha só tinha o nome,
Arretosse e disse:
Home, veleime, nunca vi tanto sofrimento e amargura,
Será que vou ter que ouvir, uma hora dessa da manhã, esses puto falando essas angustura?
Foi nessa hora que Penha de Gerar tomou partido na fé e gritou:
Cale a boca filhote de serpente corre campo,
Que pra num gostar de peleja de santo só tendo parte com coisa ruim
Ou então vive de fornicar com o tinhoso.
Ai foi que lascou tudo,
A briga de santo virou bate-boca de meio de fera com riscado deputadal.
Popeline, viscose e crepe! Gritava Bio de Zezé.
Os santos se ininharam no bufete, as beata se rasgaram na unhada.
Olha o peixe fresquinho. Tem tilapia, surubim e traira.
Há desinfeliz, tu magoou minha unha encaicada.
Ferro velho, jornal e garrafa.
Venha, eu sou rim feito araldite.
O tumulto foi ficando grande e o pau cantava.
A coisa só parou quando os volantes apartaram o engembrado
Tonha Boinha descadeirada, Penha de Gerar toda relada
E os santo descangotado.
O barulho foi grande feito estória de cantador
Essa foi a primeira vez que de tanta fé
Vi dois santos e duas beatas
Ir bater num quartel.