sábado, 6 de dezembro de 2008

Santo anjo sem Senhor

Meu vermelho Anjo
Que tem um cacho esplendoroso onde bato meu olho,
De saias longas e esfarrapadas,
Sem seus chinelos de cristal,
E com os olhos reluzindo.
Escute essa Oração que não fiz para você.
Tu que endoidas os demônios decaídos
Com teu lundu negro tapuia
E os homens deprimidos também.
Gelai por mim meu anjo.
Ho santo anjo sem Senhor
Minha Zelação, meu guardador
Me enrosca nas tuas saias
E me leva além,
Além do onde já estou.
Pelos século e séculos
Amém

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Alvorada

Me sorria um sorriso gentil

Que te convido para pintar um teto.

Escolhi as tintas, vamos pintar uma noite

Dessas com muitas estrelas qualhando o céu.

 

Mas se o Cruzeiro do Sul não te agradar

Podemos pintar uma Aurora.

Tenho tinta amarela e laranja,

Uma para sorrir e outra para apaixonar.

 

Prepare tudo sem demora

Que vou uma surpresa buscar.

Vou na casa do venderinho buscar chita e celofane

Para ornamentar nosso amanhecer.

 

O sabiá esta na varanda afinando a cantoria,

Azulão e concriz vieram ajudar.

Nosso dia está ficando belo e pronto

Num imaginário faceiro a imaginar.

 

Vista seu manto azulado coberto de flores

Que vestirei minha armadura Moura cravejada de estrelas.

Me deite em teu colo e me mostre carinhos

Pois no fim o Sol vai nascer e vamos ver juntos a Alvorada.

Empariados

Ah, como seria bom se nós vivesse empariado,

Assim juntinho, lado a lado

Nas intemperanças e dádivas desse mundo embolador.

Mas por uma gaiatice Divina nós não vevi.

Então eu fico mancomunando no meu imaginário

Situações em que nós vivesse pregado.

 

Imagina se nós fosse dentada de onça do lajedo,

Tu a dentada e eu o mordido.

Tu com a boca em eu e eu me acabando na tua boca.

Mas se isso fosse sanguinolento demais pra tu

Nós podia ser outra coisa.

 

Nós podia ser beira de rio,

Tu a corrente forte e eu um surubim pra tu me guiar.

Tu me levando nos teus braços e eu deixando me levar.

Mas se isso fosse fácil demais pra tu

Nós podia ser outra coisa.

 

Nós podia ser ferroada de fuzileiro maribondo,

Eu o ferão pra penetrar e tu a pele se abrindo para eu.

Meu ferrão fazendo parte de tu e tua pele fazendo parte de eu.

Mas se isso fosse dolorido demais para tu

Nós bem que podia ser outra coisa.

 

Nós podia ser um carro de boi,

Eu o carro e tu os bois para me levar por esse mundão a fora.

Tu levando pelo caminho e eu abraçado no teu cangote sendo levado.

Mas se isso fosse lento demais pra tu

Nós podia ser outra coisa.

 

Nós podia ser uma Cavalhada sertaneja dos doze pares de França,

Tu do cordão azul e ibérico e eu do cordão encarnado e mouro

E nós dois cavalgando juntinhos.

Mas se isso fosse demais pra tu

Nós podia ser outra coisa. 

 

Nós podia ser feito coceira de urtiga,

Eu a unha pra me esfregar em tu e tu a queimação pra se ouriçar em eu.

E se isso tudo fosse demais pra tu

Só uma traquinagem divina para juntar nós.

sábado, 15 de novembro de 2008

O Velho Galego visita terras do Leste

Sou o Velho Galego de Sumé.
Andarilho não nego não.
Corro montado em meu Castanho,
Descendente direto do legendário Pedra Lispe,
Meu fiel alazão.

Ando feito passarinho em revoada.
Meus pés se movimentam pelo chão.
Já passei por chão verde que não da semente
E pedregoso, poeirento e viçoso.
Vi quase todas as maravilhas desse e do outro mundo.

Uma das maiores maravilhas que vi
Foi em terras do leste.
Uma luminosa estrela de três Flechas
Que os anjos, com excelência magistral
Sustentavam no pretume celeste profundo do céu.

Ela estava montada na zelação
Com os cabelos enfeitados de flores
Cavalgando pelo céu de além-mar
Sem pena e sem penar,
Certeira feito a pontual Caetana.

Minha Virgem Maria que apavoração.
Se parto eu morro lá fora,
Se eu fico morro de não ir.
Me proteja faca de duas pontas,
Me ilumine meu padroeiro santo Fuzil.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Revoada - Para Carol Pires

Nesse mundo tudo se movimenta
E o implacável Tempo dá o tempero.
Com o tempo, tudo que o Tempo dá
O Tempo sem avisar vem e toma.

A Vida passa montada no vento
Que rasga o horizonte
E a Pipa branca no céu
Fazendo movimento mostra a direção.

Voa amiga Patativa
Que o mundo tem que embolar.
Vá longe fazer suas piruetas
E em outro puleiro cantar.

Se o Tempo implacável esfriar
E tomar o que te deu
Não chore amiga pequenina
Que Maria deixou um ninho bento.

sábado, 6 de setembro de 2008

A Partilha do pão. Cosme e Damião esperando a Fortuna

Os cavaleiros Solares açoitavam suas montarias
Com suas esporas de ouro e tabicas Fumegantes.
Os cascos dos corcéis riscavam línguas de Fogo aladas
Que Ferviam as pedras do lajedo.

Um par de irmãos santos, Cosme e Damião,
Penitentes, derramavam lágrimas agrestes.
Transpassados na alma e na Carne
Esfriavam a pedra com as gotas do pranto.

A cavalaria Ignorava e passava
Em um silêncio ensurdecedor e sepulcral
Refletindo os Lampejos dos cristais e do dourado.

Em meio a toda dor, um sorriso, um alívio.
Defronte a dentada da Onça celeste
Maria divina divide o pão e roga pela Fortuna.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Picadeiro

Nós bem que poderíamos fugir com o circo
E viver de amor mambembe.
Eu de palhaço, tu de trapezista.
Lá vem você flutuando, vestindo farrapos de nuvens,
Enquanto eu ficava lá de baixo dando trupicão
E molhando o chão com gotas de suor e melancolia.

Desce trapezista malvada.
Vem enxugar essa molhadeira.
Me empresta um farrapo dessas nuvens,
Um que cubra um pedacinho leviano,
De pele ou de pelo
Para satisfazer um coração mundano.

E se faltar elenco
Eu poderia ser o mágico ladrão de corações,
Que colocava cartas de copas nos ouvidos das donzelas desavisadas
E você poderia ser a fenomenal engolidora de espadas.
Iríamos arrancar suspiros,
Eu de amores e você com sua habilidade com as lâminas.

Assim nosso circo viveria de risos, lágrimas e amores.
Nossos corações viveriam coladinhos
E seriamos arteiros fazendo trela
Com os corações alheios,
Com os sonhos verdadeiros
E com os olhos devoradores.