segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Encarrascado

Nas reentranças encarrascadas de um cabelo
Existe um sonho bem sonhado.
Bem querido e guardado,
Com cheiro de chuva de janeiro.

Nas reentranças encarrascadas de um cabelo
Existe um sentimento bem sentido.
Bem gostado e gozado,
Com gosto do canto de um papa-capim.

Nas reentranças encarrascadas de um cabelo
Existe uma saudade bem dolorida.
Bem forte e viva,
Com gosto de beijo antigo.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

O homem que levou chifre de Deus

Ele já chegou pra Deus se reclamando.
Abanando os braços feito uma capota,
As ventas bufando que nem bode brabo,
Tudo isso por conta de um par de chifres que tinha levado.

Deus sem muita rudia lançou a pergunta pra corno:
- Fala meu filho qual o motivo de tua agonia?
O desenfeliz respondeu de pronto:
- Mas Deus rapaz, que danado eu fiz pra aquela ingrata me colocar essas pontas?

Deus olhou bem no miolo dos olhos do gaiudo e respondeu:
Não coloque a culpa em sua bela mulher seu cabra,
Ela de tudo fez pra ver você feliz e corado.
Na verdade você se desgraçou por um chifre que quem colocou fui eu!

Na mesma ora o danado caiu de anel no chão sem entender a traição:
Mas Deus, que danado foi isso do senhor furnicar com minha mulher?
Não foi nada disso seu sem-vergonha, eu lá sou homem dessas safadezas.
O chifre que você carrega não é de engembração e sim um castigo pelo cabra ruim que você era.

Você lembra do dia que deu uma pisa na sua esposa?
A bichinha ficou quatro dias com o miolo mole e sem sentir gosto.
Inté hoje não escuta direito do ouvido esquerdo de tanta pancada no rosto,
Tudo isso devido a um pifão que o senhor tomou no bar do velho Raposa.

Você se lembra do dia que mandou prender o pobre do Miguelon?
O bichinho ficou trancado no xadrez, mofando feito queijo .
Inté hoje tem um cacoete que é uma piscadeira sem fim por conta das pisas dos Volantes.
Tudo isso por conta de um par de galinha que tinha pego no terreiro de seu Ideon.

Você se recorde do dia que colocou de castigo seu filho Damião.
O coitado ficou amarrado no pé da mesa do almoço por uma linha de costura e não poderia torar.
Inté hoje sofre de cãibras e esta coxo de uma perna.
Tudo isso modos que ele teria ido pescar no açude com sua vara sem permissão.

Essas que me lembro e tomei nota, sem contar outras tantas que ficou pra História.
O senhor foi ruim e amargo feito fel, tratava todo mundo na ponta de sua faca,
Sem pena nem dó. Era tinhoso feito cascavel.
Gente como você pra mim é escória.

Fiz você na minha imagem e perfeição,
E tudo que você fez foi anarquizar com o meu feito.
Pois uso dos poderes que tenho e mudo sua afeição.
Em vez de parecer comigo vais ficar igual com o cão.

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Sem alumiar mares

Era uma vez um vaga-lume
Que com sua dança alumiava a lua.
Corria por espaços nunca antes corridos
E que com movimentos exatos derrubou um cavaleiro.

Era uma vez um vaga-lume
Que com sua graça sorria o sol.
Nadava em rio de contos
E que carinhava a chuva chovendo no chão.

Era uma vez um vaga-lume
Que dava presentes para Cosme e Damião.
Cobria o céu de celofane e das estrelas fazia confeito
Tudo isso para ver santos irmãos sorrirem risos santos.

Era uma ver um vaga-lume
Que não sabia que era isso tudo.
Não sabia que era o riso solto de um sol
Nem o alumiar aluminozo de um luar.

Era uma vez um vaga-lume que era minha outra asa.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Ajuda a um irmão de armas

Era uma noite de pano escarlate estrelado
Com mais de mil anjos no céu
E quinhentos diabos na terra,
Tudo como o Monarca tinha arquitetado.

Eu dormia meu sono cavalariço,
Cansado de batalhas e galopes,
Perto da boca das águas que vêm,
Em baixo de um secular pé de coração-de-negro.

Foi quando fui acordado por um grito de pavor.
Me levantei num pulo pronto para sangrar,
Sangue meu ou de quem quer que fosse.
De punhal nos dentes procurei quem deveria lutar em seu favor.

Fiquei horas a procurar,
Em qualquer lugar que fosse,
Ajudar um desesperado desenfeliz
De um descontento do destino se libertar.

Foi quando resolvi olhar para a lua cheia.
E no meio do pretume da noite pintada de vaga-lumes,
Vi na bola prateada uma situação assombrada.
O danado do dragão atacava São Jorge que quase morria.

Arretado com o atrevimento do bicho medonho
Montei no castanho e pedi bença a minha Santa Conceição.
Que ela não sentisse ciúme e me desse proteção
Pois, partia em socorro de um irmão de armas e de sonho.

Dei um cheiro na minha estrela e roubei do poeta a trova:
Não choram conforta mulher
Eu volto se assim Deus quiser.
E galopei em disparada rumo à batalha anunciada.

Era mordida e queimadura – noite que virava dia.
Ferroada e rachadura – dia que virava noite.
Nessa brincadeira forma trezentas luas de peleja e sofrimento
Até o dragão se entregar a nosso contento.

Hoje olho para lua e vejo os desenhos da batalha nela marcados.
Lembro com detalhes cada golpe e queda,
Cada queda e golpe.
E com detalhes trago as marcas da batalha nas costas desenhado.

Inté hoje, muitos sois depois,
Venho andando por essas campinas
Afim de espalhar essa estória
Na qual ajudei São Jorge a derrotar o dragão.

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Louvado seja o Mamolengo Celeste da Revoada do Oriente.

Louvado seja o Mamolengo Celeste da revoada do oriente
Que veio escapulido de um imaginário,
Com riso fácil, com olhos dóceis
Conduzido caprichosamente pelos dedos de Deus ou do Diabo.

Cada fio era feito de um sorriso,
Cada retalho de uma alegria,
Cada prega ou costura de suspiros
E cada pintura feita de uma marca carnal.

Acompanhado de quatro cavaleiros,
Cavalgando o galope da beira-mar
Sem destino de partida ou de chegada,
Sem vontade de vir ou de ir.

E, com o movimento de sua majestade, o Mamolengo,
A moscaria da mesa posta vai se afastando,
Os bascuios do desmantelo se desmantelando
E uma luz prateada entrando pelo combogo do pó que vira água, que vira pó.

Louvado seja o Mamolengo Celeste da Revoada do Oriente.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

O encontro com Albo Servonegro de Taperoá, vivido e criado nos apipucos de um arabesco.

Eu vinha montado em meu castanho,
Filho legítimo da sétima geração
Do lendário Pedra Lispe do sertão,
Caçando aves na ilusão da catingueira.

Já se fechava sete tempos da caçada,
Com meu carcará Pirauá no ombro, pronto pra dar o bote,
O bacamarte nas costas preparado pra alumiar minhas rimas e vontades
E a velha Buzaicam numa corrente riscando as unhas no chão destampando trovoadas.

Foi quando, durante minha missão rubra,
Debaixo do Monstro Solar Implacável,
Uma assombração, vinda das Casas Forte, se mostrou.
Montado na onça Caetana e de espada na mão.

Eu que não sou homem de frouxura nem covardia
Perguntei se era caso de maldição. Que ele fosse breve!
Ou algo melhor e dadivoso de grande valia.
Se fosse botija que as coordenadas me desse.

Nem perversidade, nem benfeitoria.
Falou o mal-assombro com voz rouca e profunda.
Sou Albo Servonegro de Taperoá, criado e vivido nos apipucos de um arabesco,
Contador de estórias por oficio e onde me falta memória, sobra imaginação para as mentiras preencher.

E destampou o verbo
Falando do que é certo e reto, errado e torto.
De coisas dos mundos dos morrentes
E das amarelisses e safadezas do viventes.

Me contou que viu um Rei destronado,
Filho de uma sucessão de Reis desmiolados,
Que era ruim de tapa e de pontaria e não valia um quilo na montaria.
Mas era conversadorzinho que era medonho.

Me contou que viu dois sujeitos de patifaria,
Um mentiroso que dava dó e o outro enrolão que doía.
Enterraram cachorra em Latim e venderam gato que dinheiro descomia.
Não escapou ninguém, nem do volante, nem do cangaço. Eram até capaz de fazer o tinhoso se confessar na sacristia.

Depois me falou de casório mal-acabado,
De fornicação de mulher casada com valentão e com homem frouxo também,
De caçadas no meio do mato com estratégias mirabolantes
E até de uma porca de herança com pouca validade.

Quando me dei conta já se voava o tempo.
Os relógios do céu já caiam no sereno
E os santos se ajoelhavam em glória e adoração
Para fazer a prece mais valiosa do Sertão.

Foi assim que larguei minha espingarda e meu gibão
Para empunhar uma espada enferrujada e armadura de segunda mão.
Preparo minhas mentiras com carinho e apreço.
Reconheço que me apodero do direito que o contador de estórias tem de mentir.

Pelos séculos e séculos.
Amém!

Era uma vez uma menina

Era uma vez uma menina
Que, onde ia, levava sua gaiola
Desenhada por um escriba natural de terra pecadora
E que profetizava os aboios dos vaqueiros errantes.

Era uma vez uma menina
Que na sua gaiola tinha um papa-capim,
Cantador, desses que estala e faz viração
E trazia nas mãos as estórias dessa moça com valor de confissão.

Era uma vez uma menina
Que levava uma gaiola desenhada por um escriba medonho,
Onde tinha um papa-capim amigo que guardava segredos
E que acreditava que tudo além das taliscas poderia ser verdade.