sexta-feira, 17 de abril de 2009
Chiado de rede num palavrório da aroridade
E o sol já amanhecia.
O laranja da barra do dia
No mar ainda dormia
E eu preguiçosamente deitado em minha rede vinha e ia.
Já magoava a retina a luz do manhãzinha,
Então minha prima borboleta veio no meu ouvido com palavrórios de velha tia:
A boa vida é apenas grão, água e fantasia.
segunda-feira, 2 de março de 2009
Cantada postal de amor
Canta azulão, canta miudinho
Que o canarinho
Trouxe uma carta de amor.
Estala canarinho, canta mensageiro
Que diz a carta
Que meu amor vem ligeiro.
O dia que Guadalupe se fez Confeito
Hoje desci daquela serra
Montado em meu belo Castanho.
Minha espada Guadalupe pronta para o comando,
Minha armadura de couro cravejada de estrelas do leste
Servindo de proteção contra o estranho.
Foi então que uma figura fantasmagoria
Surgiu de pronto na minha frente
Como quem acabou de sair de uma furna.
Montado em um rubro imbua
E na cintura, presa por uma pita encarnada e azul,
Uma alva flor de Jasmim.
Puxei minha Guadalupe
Com a mesma velocidade que meu sangue gelou
E outra parte mais enrugada de meu corpo de contraiu.
Fiz cara de mau e careta de papangu
Mas nada espantou o velho mal assombro.
A montaria bestial, que atendeu por Calí,
Parou com um leve toque de mão
Do velho de longas barbas.
Calça caque e remendada,
E camisa agandolada aberta no peito.
Venha de onde vier saiba que sou ruim.
Falei no ponto máximo de minha angustura.
Sou feito dentada de Cobra Coral, o cabra se lasca.
E saiba que tenho couro e sangue de Onça,
Faca não entra e se entrar não larga.
Então surge por trás da groça barba
Um sorriso belo e fraterno.
Sem entender a situação
Continuei de guarda armada,
De Guadalupe e Coração na mão.
Calma meu bom rapaz.
Venho de onde as coisas não são Reais,
De onde viver também é bom de olhos abertos.
Guarde sua espada e desarme a alma,
Isso não é mais necessário.
A agressividade é um nó, um nó cego.
De nó em nó ela se dá um laço,
No fim da jornada o laço se desfaz
E de tanto nó é um vindo que se faz.
Creia, não existe ferro ou aço que cure.
Digo sem mede e não erro:
Não gaste nó por pouca coisa.
Tire esse sentimento de dentro de você.
Como diria Tinhô Engraxate das Guararapes:
Bala deveria ser trocada por Confeito de caramelo.
Fim da Jornada
A Rainha do Sol,
Abriu uma furna secular
E prendeu meu candeeiro azul.
Na porta fez guarda atenta
Um batalhão furioso
De marimbondos-caboclos
Mestrados na traição.
No comando de fuzilaria
Segurando com orgulho uma vara de Mestre Cirandeiro
Regia o batalhão com maestria
Uma velha, sarnenta e raivosa Onça pintada do lajedo.
A Rainha do Sol fechou os olhos.
Um nó apertou a garganta
Onde não se ataca mais um paletó
E fez descer no gogó
A amargura da lágrima.
A Rainha do Sol já não tem mais a cura.
sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
Ata, desata, marca, desmarca
Deus, com toda sua sabedoria, dá o nó e ata.
O homem, metido a Deus, vai, desfaz o nó e desata.
Então sobra para o bom e velho tempo
Com sua eterna paciência desmanchar as marcas.
segunda-feira, 29 de dezembro de 2008
Nova Alvorada anunciada pelo Anjo domenical das asas coloridas - para Larissa Minghin
Sem apelo ou solução cai de uma altura vertiginosa.
Era queda fatal e irremediável,
O chão pedregoso e poeirento chegava cada vez mais perto.
A prata já lampejava nos meu olhos,
Eu já podia ouvir meus ancestrais abrindo a porta profunda
E a mão terra florir seus brancos jasmins para mim.
Foi então que um anjo com asas de ceda,
Com tantas cores que não sei nem como definir,
Me pegou nos braços mansos,
Me cantou seu canto celestial
E me livrou daquele mal nefasto.
Ele me falou que Sol diferente brilhará no céu,
E enviará o dragão do Tempo para curar qualquer ferida.
quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
Jornada de Mar
Peito ao Mar.
O Tempo já é cor de maduro.
Vou rumo ao Novo Mundo
Minha Santa tem meu caminha para Clarear.
Eu, marujo sem bandeira
Me lanço com minha Nau Catarineta
Neste tigre de barba azul
Filho da Terra e devorador de sonhos.
Em meu caminho muitos perigos.
Eu não posso parar,
Pois minha jornada é epopéica.
Nem a poderosa Brusaicã poderá me assustar.
Mil canhões apontam de minha Nau.
Não tenho uma colossal tripulação,
Mas ando com minha Ciganinha
Que usa uma saia azul que foi prenda minha.
Meu caminho é logo
E o Tigre está acordado.
Vem minha Ciganinha,
Me leva nos teus braços a minha Nau.
A chuva pinga pinicando a madeira,
Uma nuvem esconde o Sol.
Abana a saia minha Cigana
Para nossos cainhos Clarear.