Canta azulão, canta miudinho
Que o canarinho
Trouxe uma carta de amor.
Estala canarinho, canta mensageiro
Que diz a carta
Que meu amor vem ligeiro.
Canta azulão, canta miudinho
Que o canarinho
Trouxe uma carta de amor.
Estala canarinho, canta mensageiro
Que diz a carta
Que meu amor vem ligeiro.
Hoje desci daquela serra
Montado em meu belo Castanho.
Minha espada Guadalupe pronta para o comando,
Minha armadura de couro cravejada de estrelas do leste
Servindo de proteção contra o estranho.
Foi então que uma figura fantasmagoria
Surgiu de pronto na minha frente
Como quem acabou de sair de uma furna.
Montado em um rubro imbua
E na cintura, presa por uma pita encarnada e azul,
Uma alva flor de Jasmim.
Puxei minha Guadalupe
Com a mesma velocidade que meu sangue gelou
E outra parte mais enrugada de meu corpo de contraiu.
Fiz cara de mau e careta de papangu
Mas nada espantou o velho mal assombro.
A montaria bestial, que atendeu por Calí,
Parou com um leve toque de mão
Do velho de longas barbas.
Calça caque e remendada,
E camisa agandolada aberta no peito.
Venha de onde vier saiba que sou ruim.
Falei no ponto máximo de minha angustura.
Sou feito dentada de Cobra Coral, o cabra se lasca.
E saiba que tenho couro e sangue de Onça,
Faca não entra e se entrar não larga.
Então surge por trás da groça barba
Um sorriso belo e fraterno.
Sem entender a situação
Continuei de guarda armada,
De Guadalupe e Coração na mão.
Calma meu bom rapaz.
Venho de onde as coisas não são Reais,
De onde viver também é bom de olhos abertos.
Guarde sua espada e desarme a alma,
Isso não é mais necessário.
A agressividade é um nó, um nó cego.
De nó em nó ela se dá um laço,
No fim da jornada o laço se desfaz
E de tanto nó é um vindo que se faz.
Creia, não existe ferro ou aço que cure.
Digo sem mede e não erro:
Não gaste nó por pouca coisa.
Tire esse sentimento de dentro de você.
Como diria Tinhô Engraxate das Guararapes:
Bala deveria ser trocada por Confeito de caramelo.
Deus, com toda sua sabedoria, dá o nó e ata.
O homem, metido a Deus, vai, desfaz o nó e desata.
Então sobra para o bom e velho tempo
Com sua eterna paciência desmanchar as marcas.
Peito ao Mar.
O Tempo já é cor de maduro.
Vou rumo ao Novo Mundo
Minha Santa tem meu caminha para Clarear.
Eu, marujo sem bandeira
Me lanço com minha Nau Catarineta
Neste tigre de barba azul
Filho da Terra e devorador de sonhos.
Em meu caminho muitos perigos.
Eu não posso parar,
Pois minha jornada é epopéica.
Nem a poderosa Brusaicã poderá me assustar.
Mil canhões apontam de minha Nau.
Não tenho uma colossal tripulação,
Mas ando com minha Ciganinha
Que usa uma saia azul que foi prenda minha.
Meu caminho é logo
E o Tigre está acordado.
Vem minha Ciganinha,
Me leva nos teus braços a minha Nau.
A chuva pinga pinicando a madeira,
Uma nuvem esconde o Sol.
Abana a saia minha Cigana
Para nossos cainhos Clarear.
Um, dois, três
Falarei para vocês.
Eu tenho uma bela Coroa
Sou um belo Rei.
O meu trono é magistral,
É real e imponente.
É cravejado de estrelas
Que brilham constantemente.
É fino e decente.
É esculpido por artesão
Em meu sertão quente.
Um, dois, três
Falarei para vocês.
Eu tenho uma bela Coroa
Sou um belo Rei.
A minha armadura é bela
E nela se aparentam
Marcas de fogo e brasa
Que a mim muito contentam.
Minha montaria e ligeira,
Faceira e veloz.
Meu nobre Castanho
Criado no aveloz.
Um, dois, três
Falarei para vocês.
Eu tenho uma bela Coroa
Sou um belo Rei.
Sou Rei de caça,
Da praça e do mar.
Destemido e zeloso
Tenho Reinos a conquistar.
Com meus Pares de França
Tenho andanças pelo mundo todo.
Cordão azul e encarnado,
Sangue Ibérico e sangue Mouro
Um, dois, três
Falarei para vocês.
Eu tenho uma bela Coroa
Sou um belo Rei.